segunda-feira, 5 de março de 2012

Inquietude ou a solidão dos sentidos...




III Capítulo

 

(Alguns meses depois...)



Marginal, final de manhã de um sábado quente mas meio nublado, corria o mês de Julho, Afonso tinha acabado de deixar dois amigos em Alcântara, onde se tinham encontrado para pescar.
Era um daqueles dias em que não lhe apetecia estar parado com uma cana de pesca na mão, naquela monotonia e pasmaceira de esperar que o peixe se lembrasse de picar o anzol e tinha-lhes dito que ia dar uma volta, provavelmente até Cascais, depois se veriam à noite e combinariam qualquer coisa, ir talvez ao bowling, beber um copo, logo se veria.
Rodava na faixa da direita numa condução calma, sem qualquer pressa, estava apenas com vontade de conduzir e apreciar a beleza que a Marginal proporciona, com o propósito de eventualmente se o mar o permitisse, dar um mergulho no Guincho e passar lá um par de horas a apanhar uns percebes, marisco que muito apreciava.
Absorto nestes pensamentos, olhou no espelho retrovisor, atrás de si
um BMW azul escuro rolava a uma incomodativa pouca distância do seu Mercedes, acelerando um pouco mais distanciou-se e manteve essa distância por alguns segundos.
Reparou que era conduzido por uma mulher de fartos caracóis louros. Usava óculos escuros, embora o tempo meio escurecido se mostrasse pouco convidativo ao seu uso. Reparou que se ria muito e falava ao mesmo tempo, estava concerteza a falar com alguém no móvel do carro.
Voltou a encostar-se á traseira do seu carro, e isso voltou a incomodá-lo, passou para a faixa da esquerda ultrapassando de seguida três viaturas, voltando outra vez á faixa da direita, olhou no retrovisor e reparou que o BMW tinha ficado para trás.
O tempo melhorava, á medida que se aproximava de Cascais, o sol já rasgava as poucas nuvens, estava a ficar um dia lindo, talvez ficasse só
mesmo pelos mergulhos e apanhar um pouco de sol. Parando nos semáforos assustou-se com o ruído de uma travagem brusca atrás de si, olhou pelo retrovisor, era o BMW, raios partam a condução de pessoas que se distraem a falar ao telefone, pensou, reparando na distraída condutora que rindo lhe fizera um gesto de atrevida condescendência, ao mesmo tempo que levantava a mão direita num sinal de desculpa e arrependimento, como que dizendo “ia sendo desta mas não foi” retribuiu, sorrindo e abanando a cabeça como que a reprovar o seu tipo de condução e ao mesmo tempo avisando-a que tinha sido por sorte, pura sorte não se ter enfeixado na sua traseira.
Arrancou na abertura dos sinais, não perdendo de vista o BMW que agora o ultrapassava sem pressa, olhou pela janela aberta, ela reparando nesse seu gesto voltou a sorrir, sem olhar para ele, sem desviar o olhar da sua condução. Pensou em segui-la, e quando se preparava para o fazer, ela passou um sinal vermelho, deixando-o um
pouco frustrado, mas com a firme intenção de a seguir. Atravessou a cidade sempre a uma distância considerável, pois as viaturas que iam à sua frente não permitiam que se aproximasse dela, no entanto não a
tinha perdido de vista, e logo que entraram na estrada do Guincho começou a ultrapassar os vários carros que se tinham mantido entre eles, achou curioso ela seguir também na direcção do Cabo Raso, no Guincho. Aproximou-se da sua traseira e manteve-se colado durante uns metros, depois pensou no que estava a fazer, pareceu-lhe um perfeito disparate e decidiu ultrapassá-la olhando para o seu lado direito nesse momento, riu-se mas desta vez não obteve qualquer sinal da parte dela, então acelerou e começou a ver a distância a aumentar, prevendo que iria deixar de a ver, assim aconteceu, pois ela
entretanto também se deixou ultrapassar por outros carros que seguiam nesse sentido e depois de percorrer os quilómetros que faltavam até à praia do Guincho, quase se esqueceu dela.
Intransitável, os cerca de dois quilómetros que faltavam até à praia estavam repletos de carros, não estava com paciência para ficar ali parado, alguns condutores á sua frente começavam a fazer meia volta,
pensou em fazer o mesmo pois o mar que avistava da estrada estava bom para tudo menos para mergulhar. O vento e as ondas altas proporcionavam aos surfistas e aos amantes de Kite Surf um dia em cheio, descompondo um pouco o azul forte do céu e o branco neve deixado pela espuma da forte rebentação, com as suas coloridas pranchas e asas a subir, a planar e descer vertiginosamente ao sabor do vento forte, quase tempestuoso que habitualmente se faz sentir na praia do Guincho.
Assim fez, voltou para trás, seguiu devagar na expectativa de parar a qualquer momento, olhando para o lado direito sempre a avistar o mar, na primeira possibilidade de estacionar pararia, estava com dificuldades em arranjar lugar, pois o lado direito da estrada estava repleto de carros estacionados.
Lembrou-se que junto ao Cabo Raso, habitualmente havia lugar e para lá se dirigiu. Cerca de dois quilómetros à frente virou à direita reparando que aí o mar já era outro, calmo, como se de outro oceano se tratasse.
Entrou na estrada de areão maltratada, esburacada, que dava acesso a uma pequena praia e se mantinha assim desde que tinha memória, e ainda bem , pensou, era uma forma de outros a evitarem e assim estava quase sempre sem ninguém. Andou assim mais uns metros sem pressa, virou na primeira e única curva que dava acesso á arriba de onde se avistavam os velhos viveiros de marisco abandonados e ao mesmo tempo o único acesso á praia.
Não acredito?!? Exclamou, ainda incrédulo e admirado, mas visivelmente curioso. O BMW azul escuro estava aí parado, sem ninguém lá dentro. Parou o carro exactamente onde estava, ao mesmo tempo que lhe passava pela cabeça que se a mulher estivesse por ali a vê-lo pensaria que ele era algum tarado que a seguia. Olhou em redor, nada. Saiu do carro, fechou a porta, aproximou-se da beira na pequena falésia, olhou na direcção do único sítio que achava possível alguém poder estar. Lá em baixo também não avistou ninguém, mas apenas uma toalha de praia de cor amarelo vivo, dobrada em cima de algo que julgou ser um saco ou bolsa de praia. Instintivamente olhou em frente, para o mar revolto,  lá estava ela na boca da minúscula enseada, nadava no sentido da praia, as suas braçadas eram curtas mas vigorosas, denotava que sabia onde estava, o mar ali não era propriamente bom para se nadar, pois mesmo nos dias, poucos, de calmaria, era cheio de correntes atravessadas e traiçoeiras e escondia imensos perigos, só mesmo um bom nadador ou um louco se atreveriam a tomar banho ali.
Esperou que saísse da água, o que fez vagarosamente, como se não tivesse reparado que estava ali alguém a observá-la.
Usava um fato de banho branco, e notava-se pelo seu bronzeado que já levava uns dias de praia. Sem hesitar dirigiu-se á toalha, levantou-a, destapando um saco preto de rede, ao mesmo tempo que se enxugava, olhou para cima na sua direcção. Provocadoramente, olhou-o durante uns momentos como se lhe estivesse a dizer que não se intimidava com a sua presença, embora não fosse bem vindo. Depois tirou do saco aquilo que lhe pareceu ser uma revista, sentou-se na toalha, procurou algo no saco, um maço de cigarros, tirou um que acendeu de seguida ao mesmo tempo que colocava os óculos de sol, ficou assim, virada de costas para ele, com a revista ao seu lado, descontraídamente a fumar e a olhar para a linha do horizonte.
Enquanto a observava, ocorreu-lhe dar meia volta, sair dali e procurar outro sítio, mas a curiosidade em conhece-la crescia, então como lhe era habitual, lembrou-se do velho lema que o acompanhava desde a adolescência, “só perde quem tem” e quem tinha algo realmente a perder? Não era o seu caso, o “não” já era um dado adquirido, portanto iria tentar saber quem era aquela mulher, que se lixasse, se levasse uma resposta negativa, já estaria preparado, e depois pareceu-lhe que na sua breve observação valia a pena arriscar, pois de corpo ela era escultural, de baixa estatura, mas com tudo no sítio.
Como faria? Uma abordagem directa? Simular uma qualquer casualidade? Sentar-se ao lado dela?  Enquanto estes pensamentos lhe invadiam a mente, entrava naquela fase do nervosismo miudinho e ocorreu-lhe que se calhar ela estava ali á espera de alguém, de uma amiga, pior... de um namorado. Alguém que a qualquer momento chegasse ali, e então lembrou-se que provavelmente não seria boa ideia. Nesta fase já ele tinha descido pelo lado esquerdo da falésia, já estava na boca da enseada, embora a uns bons setenta metros do local onde ela se encontrava. Olhou na direcção dela, reparou que o observava também, e nesse momento sentiu um desconforto enorme, ao ponto de não conseguir sequer mais olhar na sua direcção.
Pensou, merda! Está definitivamente à espera de alguém, o que estava ali a fazer? A forma como o olhou, desafiadora, como se não temesse a sua presença, podia querer dizer isso mesmo, ou não?
Estava a ficar irritado consigo próprio, com as suas assumidas hesitações. Simulou dar uns passos adiante, de um salto vigoroso alcançou uma rocha no meio da água turbulenta, sentiu-se observado, assim acontecia, curiosa e disfarçadamente tinha reparado que ela o seguia com o seu olhar.
Ele colocou-se de cócoras, como se estivesse a observar o local mais
minuciosamente, levantou-se e continuou a observar o mar, voltou-se no sentido dela, reparou que continuava a olhar para ele, sem qualquer intenção de o disfarçar, voltou a saltar, agora no sentido inverso, deu uns quantos passos em frente, olhando ora no sentido dela, ora para o chão, baixou-se, apanhou uma pedra de características invulgares, com uns veios de tonalidade azulada e ao mesmo tempo coloridos de cinza, lisa e polida pelo tempo e pelo mar. Tentou fechá-la na mão, mas a sua proporção era maior que a palma da sua mão,   levantou-se, estava agora a pouca distância do sítio onde ela se encontrava, sem mostrar qualquer interesse, folheando a revista, como se procurasse alguma notícia interessante, mostrava-se completamente alheia à sua presença.
Sentiu alguma decepção ao mesmo tempo que experimentava um novo e confortável á vontade, seguiu no sentido dela, pois também era agora o acesso ao seu carro que se encontrava no cimo da falésia.
 - Boa tarde! - Disse, num tom meio arrependido, algo incrédulo e receoso por ter acabado de o fazer.
 - Boa tarde! - Disse ela energicamente, ao mesmo tempo que olhava para ele, sem tirar os óculos escuros, provocadora, num tom quase intimidatório  como se o estivesse a questionar ou mesmo a interrogar, sentiu-se pequeno, aqueles segundos pareceram-lhe intermináveis, à muito que não se sentia tão desconfortável, começava a arrepender-se do gesto, embora não sentisse vontade de desistir.
- Olá, sou o Afonso - Balbuciou, com um  sorriso sincero, em simultâneo retirou os óculos de sol, baixou-se   e estendeu-lhe  a mão
amistosamente, no sentido de a cumprimentar.
- Olá, eu sou a Lara - Disse, olhando-o fixamente, pareceu-lhe, já que ela  não tinha retirado os óculos, e estes eram incrivelmente escuros, não permitindo ver-lhe os olhos, o que o deixou irritado, pois gostava de olhar as pessoas nos olhos, e nem lhe estendera a mão.
Ok está armada em difícil, pensou, ao mesmo tempo que nervosa e rapidamente recolhia a mão, disfarçando aquele impensado gesto com um tímido passar de mão pela barba por fazer, do dia anterior, coçando-a sem sentir qualquer comichão. Colocou no chão, a pedra que tinha apanhado antes, ela desviou o olhar por um segundo, mostrou-se completamente desinteressada.
- Posso-me sentar? – Insistiu.
- Pode, desde que não se sente ao meu colo – Continuando a olhá-lo fixamente, sem retirar os óculos, esboçando um sorriso sincero mas irónico. Como se estivesse a gozar aquele momento, aguardando por mais, estava visivelmente curiosa, notava-se, mas parecia muito segura de si, estava a controlar a situação, deixando para ele as perguntas, respondendo com curtas frases, não lhe dando grande espaço de manobra, ao mesmo tempo que mostrava alguma vontade em ser agradavelmente surpreendida.
- Afonso decidiu ser directo, percebeu que tinha pela frente alguém com muita experiência na vida e nas relações entre pessoas, entendeu que o normal “engate” não iria funcionar, perguntou-lhe se estava ali à espera de alguém.
- Não, respondeu laconicamente - Para que é a pedra? Perguntou.
- Para nada, achei-a apenas invulgar e bonita, e como colecciono pedras invulgares,  apanhei-a – disse.
- Também podia dar-lhe para pior - disse troçando num á vontade que o deixou completamente desconcertado, como se fosse um perfeito disparate um homem andar a apanhar pedras, ela reparando que estava a deixá-lo sem qualquer hipótese de manter um diálogo, rematou dizendo que cada maluco tinha a sua pancada, deixando no ar a ideia que também se podia associar a ele pois também teria uma pancada qualquer, mais uma vez fê-lo com aquele sorriso irónico, de quem estava nitidamente a gozar com ele.
Nisto mudou de posição sentando-se de frente para ele, cruzou as pernas na posição de índio, tirou os óculos devagar sem olhar directamente para ele, abanou a cabeça vigorosamente, passando as suas mãos pelo cabelo encaracolado, ajeitou-o e sem olhar para ele voltou a colocar os óculos escuros, esta teria sido novamente outra pequena decepção, mas Afonso já não pensava nisso, estava apenas envolvido naquele pequeno pormenor, nada demais, pensava apenas em fazer-lhe a pergunta, directamente, sem rodeios.
- Não! Não sou casada, disse-lhe ela, antecipando-se á sua indisfarçável curiosidade, tinha reparado que ao colocar os óculos ele tinha observado a aliança, que trazia no seu dedo.
- Não fique com receio que não estou também à espera do meu marido, continuou, já que Afonso em silêncio, parecia agora dono e senhor da situação, como se a tivesse apanhado numa qualquer mentira, num logro e olhava-a directamente nos olhos, sem os descortinar, mas com ar de quem esperava uma satisfação, e que não estava a acreditar muito nela.
Começava a dar resultado esse seu ar inquisitório, sem saber bem porquê, não se sentia com esse direito, mas mantinha-se firme, o “jogo” tinha virado.
Ela retirou finalmente os óculos escuros, aproximou-se um pouco mais, olhou-o fixamente, ao mesmo tempo que estendia as suas mãos, na sua direcção, retirou a aliança, facilmente, mostrando-lhe o dedo nu, disse-lhe que reparasse no dedo, que visse a não existência de qualquer marca demonstrativa de um uso constante.
Disse-o com um ar visivelmente irritado, demostrando-lhe que não gostava de pessoas intrometidas, que aliás o uso ocasional da referida aliança era precisamente esse, o de muitas vezes afastar palermas intrometidos, homens fúteis, para os quais já não tinha paciência, pois eram todos iguais, só a procuravam com um intuito... sexo.
Os seus olhos eram castanhos, mas a raiva que soltava na resposta davam-lhe um ar de extrema acutilância, aproximando-os de um negro brilhante, de fera assanhada.
Afonso riu-se, em simultâneo puxou de um cigarro, oferecendo-lhe um também, ela recusou dizendo que gostava mais dos da marca dela, perguntando-lhe de seguida se ele era casado, ou se também era daqueles que escondia a aliança quando conhecia alguém ocasionalmente, dando-lhe de seguida alguns exemplos de casos que já teriam acontecido com ela. Afonso acendeu o cigarro, deu duas passas, apoiou-se no braço esquerdo e perguntou-lhe.
- E se for?- estou a faltar-lhe ao respeito? Estou a fazer algo que coloque em causa a minha seriedade com a minha eventual mulher?
- Então é casado!?! E o que espera de mim? Porque razão se meteu comigo? O que pretende? Não sente um arrependimento? Faz isto muitas vezes? Perguntou-lhe ela metralhando-o sem lhe dar hipótese de resposta.
Afonso voltou a sorrir, ao mesmo tempo que puxava da carteira, de onde retirou o Bilhete de Identidade, estendo-lho, disse-lhe calmamente.
- Não. Lara, sou divorciado e desajuntado.
Lara olhou para o B.I., meio envergonhada, leu que era verdade, mas sem deixar cair a guarda, ainda ripostou, que podia ser verdade mas se calhar tinha namorada,  e não se coibia de estar ali a “arrastar” a asa, e assaltou-lhe a pergunta. Desajuntado? Que raio queria isso dizer?
- Isso mesmo.- Disse-lhe Afonso.
Explicou-lhe então que tinha vivido maritalmente com Marta, cerca de nove meses e meio, que tinha sido uma relação difícil, que a separação tinha sido muito mais complicada que o seu divórcio. Ela já mais calma, parecia interessada em saber mais pormenores, mesmo os que percebia terem sido os mais sórdidos, mas Afonso estava neste momento muito mais interessado em conhecer Lara, mais do que voltar a falar num assunto que nada lhe  agradava, que lhe trazia ainda muitas mágoas. Lara percebeu e de seguida contou-lhe que estava divorciada á cerca de 8 meses, que tinha mesmo depois disso a percepção que o ex. marido a seguia constantemente. Percepção ou certeza? Afonso estava intrigado.
Lara disse-lhe aquilo que lhe pareceu ser a verdade, honestamente pensou que afinal a raiva que  Lara tinha demonstrado anteriormente resultava disso mesmo, perseguição... e não só, chantagem psicológica, violência verbal e  mesmo física e o que nunca pensara vir a ouvir, Lara contou-lhe que ele a tinha perseguido e violentado após o divórcio.
Afonso não querendo acreditar, perguntou-lhe porque não tinha feito queixa dele á polícia, se os amigos e familiares sabiam o que se tinha passado, disse-lhe mesmo que achava estranho, quando ela falara disso, pois parecia ter um ar de resignação, como se não fosse assim tão grave. Lara disse-lhe que não contara a ninguém senão a uma amiga de infância e a um grande amigo, que via como a um irmão, mas na única condição de nada contarem.
Afonso fez-lhe a pergunta inevitável, porque lhe contara a ele, um perfeito desconhecido, alguém que poderia mesmo tê-la seguido e pudesse estar a mando do ex. marido, porquê ele?
Lara demonstrava uma frieza incrível, embora parecesse um animal selvagem ferido. A emoção mais forte era a da inegável vontade de se vingar, deu-lhe a entender que sobre o assunto da violação e da eventual vingança teria de ficar por ali, não lhe iria dizer mais nada...por enquanto, era por isso o seu ar resignado. Em relação a ter tido esta conversa com ele, disse-lhe simplesmente que Afonso lhe inspirava alguma confiança, podia não estar a falar com a pessoa certa, mas também gostava de saber a opinião de alguém que não a conhecesse, sentia alguma vontade em desabafar com alguém.
- E voçê não deve estar a mando de ninguém, pois quem estava atrás de si na Marginal era eu, certo?
- Pois tem razão, já me tinha esquecido que me ia abalroando. E vejo que tem boa memória, recorda-se então que era eu que estava à sua frente?
- Porquê? Você para estar aqui, é porque reparou no carro que está lá em cima não?
- Sim, tem razão, acredita no destino? - Perguntou Afonso.
- Acredito que as coisas não acontecem sempre por mero acaso.
Afonso, perguntou-lhe ainda se tinham ficado filhos dessa relação, ela com algum desagrado e incómodo disse-lhe que precisamente por não terem filhos é que ele a perseguia e a tinha violado no sentido de a engravidar, pois sabia que se isso acontecesse ela não iria abortar, era contra os seus princípios.
Afonso estava ficar com um nó na garganta, aquela mulher, e tudo o levava a crer que estava a falar verdade, era uma vítima disfarçada naquela capa de mulher sem medo, tinha sofrido enquanto casada, torturas impensáveis e nem o seu divórcio a tinha deixado descansada. Vivia num constante terror, mas acomodada nesse seu sofrimento, silenciosa. Pensou que afinal o que se tinha passado na sua relação anterior, mesmo com as perseguições que Marta ainda lhe fazia era em tudo incomparavelmente menor com o que lhe tinha descrito Lara.
Ela contara-lhe isto tudo a ele, um perfeito desconhecido, sem qualquer desconfiança, num misto de raiva, vingança, e ódio.
Ele sem conhecer o ex. marido de Lara, já sentia uma raiva enorme, já o via como alguém que odiava também.
Estiveram cerca de duas horas a conversar, foram falando de tudo e embora Lara lhe tivesse manifestado vontade de não falar mais sobre aquele assunto ia acabando por lhe contar a sua aterrorizante e recente vivência.
Lara era uma mulher nova, tinha trinta e quatro anos, dois dos quais casada, tal como Afonso, tinha casado tarde, não se queria prender antes dos trinta, era vendedora de  automóveis no Estoril, era daí que tinha conhecido o seu ex. marido, mostrou-lhe um cartão de uma antiga empresa que tinham tido os dois, e um actual onde trabalhava agora, era um stand de um amigo, que lhe tinha dado uma pequena sociedade, uma percentagem pequena, de incentivo, ela contou-lhe que até isso o ex. marido lhe tentara roubar, e as lágrimas, que até aí estiveram ausentes, apareceram a afogar-lhe o olhar, a toldar-lhe a voz, Afonso teve compaixão dela e num gesto de amizade, com o polegar, tentou limpar-lhe o rosto, ela não esboçou nenhuma desaprovação, como se sentisse sinceridade nele e até algum desejo que o fizesse. Aproximando-se mais, Afonso deu-lhe um beijo na face ao mesmo tempo que com a outra mão a acarinhava, fazendo-lhe uma pequena festa em volta dos olhos húmidos. Em simultâneo sentiu os braços fortes dela em volta do seu corpo, sussurrando-lhe ao ouvido enquanto o apertava num imenso abraço, um eterno obrigado.
Ficaram assim, abraçados durante um bom par de minutos, e tanto Lara como Afonso, perceberam que estavam perigosamente próximos. Lara soltando os braços que envolviam Afonso, foi agradecendo o carinho, em simultâneo tirou um maço de lenços de papel  do saco de rede, enxugou os olhos humedecidos e assuou-se.
Afonso com um sorriso, disse-lhe:
- Que achas de eu te convidar para beber uma cerveja? Posso tratar-te por tu não? Está a ficar um pouco desagradável e sempre podíamos ir
até uma esplanada, o que me dizes?
- Óptima ideia, nem demos por este vento levantar e está realmente a ficar frio, claro que nos podemos tratar por tu. Olha tenho um amigo que tem um bar na praia de Carcavelos, e faz uns caracóis espectaculares, gostas de caracóis?
- Se gosto? Sou doido por caracóis, vamos embora já!
Lara levantou-se, arrumou apressadamente as suas coisas dentro do saco, vestiu a saia de ganga e a blusa de linho amarela por cima do fato de banho, Enquanto Afonso a observava, calçou os chinelos e perguntou-lhe se costumava ir muitas vezes para ali, dizendo-lhe que esta era a terceira ou a quarta vez que se tinha ali deslocado.
- Costumo vir aqui algumas vezes, mas praticamente só para pescar, não me recordo de te ter visto por aqui nenhuma vez.
- Pois andámos desencontrados. - Disse-lhe Lara.
Afonso pegou-lhe no saco, dirigindo-se à base da falésia esperou por Lara, estendeu-lhe a mão e ajudou-a a subir as rochas íngremes.
Já no cimo, Afonso ofegante deixou escapar uma frase.
- Bolas estou a ficar velho, isto cansa.
- Não és só tu, eu também estou de rastos, se me tapassem agora a boca ficava-me já por aqui. – Disse Lara, nitidamente ainda mais cansada.
Afonso perguntou-lhe se ela iria consigo ou vice versa.
- Não. Eu vou à frente e depois dali vou para casa.
- Sim é melhor. Não só por isso mas porque tu também és um pouco perigosa a conduzir e ainda te enfeixas na minha traseira- Disse-lhe Afonso com ar de gozo.
- Que gracinha, vê lá se te cai um dentinho com a piada, Oh ! – Exclamou Lara ao mesmo tempo que apontava para o seu carro. – Eu não acredito!?! Que merda era o que me faltava. Porra!
Olha – disse-lhe Afonso - E não é só o pneu da frente, se reparares o de trás está da mesma maneira.
Incrédulos olhavam para ambos os pneus do BMW de Lara. Os dois em baixo, inacreditável. Trocaram um olhar de admiração e também de acordo, alguém tinha ali estado, olharam em redor mas quem eventualmente o fez, já não estaria ali concerteza.
Ambos concordaram que não deram conta enquanto lá estiveram por debaixo da falésia, de nenhum carro a aproximar-se, mas também era difícil, com a conversa, distraídos, o barulho do mar, e alguém que o fizesse não precisava de se aproximar de carro, podia perfeitamente tê-lo feito a pé.
- Queres apostar que foi o cabrão do meu ex. filho da mãe, só podia ser ele ou alguém a mando dele – Soltou Lara.
- Calma, não podes dizer isso, sabes lá se foi ele, sabes que andam aí uns gajos agora que fazem isto, depois os donos ausentam-se para ir buscar pneus ou ajuda e quando chegam têm lá o lugar.  Habitualmente um carro desta gama vai de reboque e perde-se o paradeiro para sempre. Vá ! – disse-lhe Afonso, não tenhas a mania da perseguição.
- Pois acredito, é nisso e no Pai Natal, aposto contigo que foi ele ou alguém das relações de merda que ele tem.
- Bom não aposto, o que sei é que ainda quero ir comer os caracóis e portanto temos de arranjar uma solução para sair daqui - Respondeu-lhe Afonso ao mesmo tempo que se baixava para verificar os pneus.
Os pneus não pareciam estar furados, talvez estivessem apenas sem ar. Afonso transmitiu-lhe isso, acalmando-a, dizendo-lhe também que se assim fosse estavam com sorte, tinha uma bomba de  encher o seu barco de borracha dentro do carro, demoraria um pouco mas se não estivessem furados sairiam dali rapidamente.
Abriu a mala do seu carro, retirou a bomba e começou a encher o pneu da frente, parou um pouco para verificar se deixava sair algum ar, não saiu e então recomeçou, até ficar com o aspecto dos outros.
Repetiu a operação no pneu de trás, retirou e arrumou a bomba novamente no seu carro. Neste espaço de tempo estiveram os dois sempre em silêncio, no entanto Afonso não tinha deixado de pensar nas vezes que Marta ou alguém em que ela mandaria o tinham deixado nesta situação, com um ou dois pneus em baixo, depois da sua separação. Quem sabe se não teria sido ela? Ainda ? Ao fim deste tempo todo? Bom não queria ainda dizer a Lara tudo sobre a sua relação inacabada com Marta, era melhor por agora deixar Lara pensar que tinha sido o ex. marido e não falar mais nisso.
- Vês?!? – Foi rápido, vamos embora? Daqui a vinte minutos estamos em Carcavelos, de volta daqueles caracóis, espero que sejam mesmo bons, que eu sou muito esquisito. Estou com uma sede, agora caía mesmo bem uma imperial, embora? Lara concordou e agradeceu-lhe com um sorriso, entrou no seu carro, pô-lo a trabalhar e arrancou devagar, Afonso seguiu-a, entraram na estrada do Guincho na direcção da Boca do Inferno, atravessaram o interior de Cascais, vagarosamente, o  trânsito estava um caos, filas de carros intermináveis, aquela hora era complicada, ainda para mais o tempo tinha estado convidativo, e depois Cascais era um centro turístico, nesta altura do ano, o Verão convidava residentes, turistas de ocasião, imensa gente de nacionalidade diversa a visitar as suas solarengas praias, as suas imensas esplanadas.
Ainda a pensar no sucedido, Afonso dizia para si, que raio, que dia, tinha conhecido Lara, uma mulher, não muito bonita é verdade, mas muito atraente, inteligente, uma mulher que lhe parecia ser sincera, tinham-se conhecido daquela forma, invulgar, tiveram uma agradável conversa, embora para falar dos seus sofrimentos e infelicidades, e depois para rematar, a história dos pneus, bom agora queria mesmo era caracóis, imperiais e conhecê-la melhor.
Quinze minutos depois estavam a entrar num dos  parques de estacionamento da praia de Carcavelos, arrumaram facilmente os carros apesar de aquela hora a praia estar como de costume, repleta de gente, eram sete horas da tarde, mas o sol ainda estava preguiçoso.
Desceram umas escadas de acesso á praia, andaram cerca de trinta metros, por entre as esplanadas.
- Já viste? Hoje nada nos corre bem- disse Lara, apontando para a porta do bar do amigo.
Na porta de vidro, um papel com uma cruz negra, um obituário indicando o fecho por motivos fúnebres.
- Bom mas devem existir aí outros bares onde haja caracóis não? além disso estou com sede.
- Afonso, sabes que mais? Com tudo isto, e não me sai da cabeça a história dos pneus, sei lá até estou com receio de ligar para o meu amigo e perguntar-lhe o que se passou, quem terá morrido? Já não me apetece nada, acho que vou para casa tomar um bom banho de imersão, deitar-me sem jantar, sei lá, não te importas pois não?
Afonso disse-lhe que compreendia e não se importava, concordou algo decepcionado mas não estava com vontade de a contrariar, pediu-lhe apenas que o acompanhasse numa imperial, depois sairiam dali, cada um para sua casa.
Assim fizeram ao balcão de outra esplanada, não se sentaram. Afonso tirando o cartão que ela lhe tinha dado, perguntou-lhe se não se importava que ele lhe ligasse á noite, ou se queria ficar com o seu número de telefone.
Ela disse-lhe que lhe ligasse, mas que não criasse muitas expectativas, não estava com muita vontade, nem de falar, muito menos de sair, quanto ao número de telefone quando ele lhe ligasse ficaria a saber., qual era o seu número.
Beberam rapidamente, pagaram e voltaram para os carros, despediram-se amistosamente com dois beijos na face e uma carícia mútua, ela sem olhar para trás entrou no seu carro e afastou-se dali, enquanto Afonso falava sozinho.
- Vou-te ligar ! Gostei muito de ti, vou querer voltar a estar contigo.
Saiu dali, mas sem pressa, abrindo os vidros do carro, levantou o volume do leitor de CDs. acendeu um cigarro, e nesse instante lembrou-se:
Que merda! Esqueci-me da pedra! Oh que caraças, Era bonita para a minha colecção. Bom, no domingo se estivesse bom tempo voltaria ali talvez, sabia perfeitamente onde a tinha deixado. Mas também era só uma simples pedra, se lhe apetecesse tudo bem, se não, o que não faltavam eram pedras.


















Falta-me o inconstante olhar no futuro,
Onde me canso, gasto e envelheço,
Falta-me ir de encontro ao que não procuro,
Onde me falta o princípio do meu fim,
Onde me recolho na falta, em vez de um começo.

Sinto um soberbo desvendar do meu segredo,
Encantado numa volátil brisa tardia,
Fico miserável ao me ocultar no medo,
Sou destroço, pouco mais que nada,
Esperando a chegada da sôfrega melancolia.

Talvez cedo de mais para eu por aqui ficar,
E talvez tarde de mais para eu só, partir,
Acolho-me na hora incerta para me tentar,
Num suicídio que ainda me espreita,
Que me deseja neste meu breve sentir.

Suspiro na falta da tua e da minha vontade,
Assim como me falta o teu ventre vazio,
Espero que nunca sofras na minha saudade,
Nem recordes aquele que eu não sou,
Lembrando somente quem nunca partiu.

Reconheço-te na dor de nós separados,
Como reconheço a sombra que nos persegue,
Julgarei quem nos fez injustos condenados,
Sendo mártir de uma última coragem,
Abrindo um mar onde o nosso amor navegue.

Afonso







Embora sem conseguir prestar muita atenção, tentava compreender o porquê daquele poema, deixado por Afonso naquela manhã em cima da pequena mesa de centro, na ampla e sumptuosa sala.
Lara ainda meio ensonada, dirigiu-se à janela da sua varanda, abriu os estores, olhou para o céu azul e límpido onde o sol soberbo reinava à um bom par de horas. Bocejando, esfregou os olhos, ainda mal habituados à claridade que irrompia agora pela sala meio desarrumada.
Sentou-se no amplo sofá creme, cruzou as pernas. Por um breve momento colocou a folha ao seu lado, olhou em redor. Sorriu, os seus sapatos de salto alto permaneciam espalhados pelo chão da sala. No sofá pequeno ao canto e no chão continuavam as suas roupas amarrotadas. Relembraram-lhe a noite anterior.
Tinha sido ali que ela e Afonso tinham feito amor pela primeira vez. Passaram-lhe pela mente, em acelerada retrospectiva todos os momentos tórridos que tinham feito sentir um ao outro.
Afonso tinha-lhe telefonado nessa mesma noite. Lara apesar de não estar com muita vontade acabara por aceder a sair com Afonso devido à sua enorme persistência.
Tinham apenas passeado na pequena praia da Torre, bebido um café, conversando mais um pouco, nada de mais.
Quando a trouxera a sua casa, Lara perguntara-lhe se não queria subir, com o pretexto de beberem alguma coisa e conhecer a sua casa.
Esse era apenas um pretexto, pois tanto Lara, como Afonso sentiam-se imensamente atraídos um pelo outro. Já na praia, naquela tarde o tinham sentido. Como esperava, Afonso tinha dito que sim, não sem antes ter evidenciado uma pequena hesitação, talvez admirado com a franqueza de Lara, talvez por ter partido de Lara, essa iniciativa.
Não se sentia incomodada por ter conhecido alguém numa tarde e com essa mesma pessoa ter tido sexo na mesma noite. Embora esse tipo de atitude não fizesse parte dos seus hábitos, Lara desta vez estava à imenso tempo sozinha. Afonso pelo que lhe tinha contado também. Seria verdade? Teria tido alguém à pouco tempo? Ainda estaria com alguém? Deixou de sorrir, pegando na folha de papel com o poema, preparando-se para o ler. Pressentiu que eventualmente estaria ali a resposta a todas essas questões que a assaltavam. Já começara a despertar daquela madorna. E o que estaria a sentir Afonso? Teria gostado tanto quanto ela?
Voltou a ler. Continuava não só a não perceber o porquê, bem como o próprio poema. Não era das coisas que mais apreciava, aliás até achava um pouco enfadonho, ler livros, romances, quanto mais poesia. Afonso seria assim? Enfadonho? Tinha percebido que Afonso não era uma pessoa superficial ou fútil e isso agradava-lhe. Imaginou-o um pouco romântico, nessa noite ele tinha-lhe oferecido uma rosa vermelha, a qual permanecia em cima do aparador, no hall de entrada.
Talvez até nem lhe tivesse dado a importância devida, mas a fogosidade que Afonso tinha manifestado ao entrar em sua casa não permitiu que a colocasse numa jarra com água.
Pensou... qual a mulher que não gostaria de ter um homem romântico ao seu lado? Sinceramente... Lara era uma mulher demasiado prática, a sua profissão, a sua maneira de viver também não a deixavam ser de outra forma, mas fazia o que gostava, muitíssimo. É claro que dava importância aos preliminares, mas não tanta assim. Gostava de sentir atenção, carinho e adorava todos os jogos de sedução. Afonso tinha acabado de entrar pela sua vida dentro, assim, como um furacão, prático e incisivo...mas romântico.
Deixou de ler, colocou a folha novamente sobre a mesa. Não estava com paciência. A hora da manhã também não era a mais propícia, muito menos para leituras daquele género. Perguntar-lhe-ia mais tarde, pessoalmente. Ficaram de almoçar nesse dia. Lara ligar-lhe-ia para ele a ir buscar assim que estivesse despachada.
Levantou-se indolente, espreguiçou-se, foi até ao quarto, pelo caminho ainda tropeçou nos seus próprios passos, meio trôpega. Foi ajeitando o farto e louro cabelo encaracolado. Parou diante do espelho sobreposto ao aparador.
Os seus olhos desceram na direcção da rosa. Tocou-a levemente, sem a mover, enquanto se encaminhou novamente para o seu quarto. Apesar de tudo ainda tinha algumas horas naquela manhã de domingo. Despiu o robe de cetim rosa transparente e deitou-se novamente, sem qualquer intenção de dormir, apenas a de ficar assim, num prolongado relaxamento em cima da sua cama desfeita.
Um perfume suave e agridoce, com uma ligeira fragrância a madeira, ainda invadia teimosamente o seu quarto, que se mantinha numa preguiçosa penumbra. O longo cortinado de cor rubi, ocultava por completo a janela entre aberta. Gostava daquele cheiro. Deixou cair a cabeça levemente para o lado esquerdo da cama. Era ali que o odor nascia, um suave odor que lhe deixou uma agradável permissão em se excitar. Cheirava a homem...
Não conseguiu resistir. Acariciou as pernas com as suas mãos suavemente, foi subindo lentamente, enquanto fechava os olhos imaginando que Afonso estivesse ali. Uma das mãos ficou, a outra subiu, percorrendo o que restava do seu corpo até aos desnudados seios, acariciando-os, com algum vigor, como querendo-os despertar. Não ficou aí muito tempo. Começou a lamber e a morder o indicador, enquanto a sua outra mão se mantinha apertada entre as suas pernas, escondendo um dedo laborioso.
Sentia o calor a subir pelo seu corpo, abriu as pernas devagar como se estivesse preparada para ser penetrada, assim fez, colocando dois dedos no interior da humedecida vagina. Num vai vem lento, de prazer, levantou os joelhos alternadamente. Depois fê-lo mais frenética e energicamente, enquanto da sua boca saíam lânguidos e longos sons de prazer. Enquanto mordia os lábios, soltou um sorriso imenso de satisfação sem abrir os olhos, tinha acabado de ter um orgasmo. Estendeu o seu braço esquerdo na direcção onde Afonso tinha adormecido na noite anterior, imaginando-o ali...acabou também por adormecer.















Inquietude ou a solidão dos sentidos...

 
II Capítulo



Avistou o final da recta da estrada de campo. Estava a pouco tempo de entrar na ponte de Vila Franca de Xira. Pouco mais de dois quilómetros e estava a entrar no cruzamento. Veio-lhe à memória a primeira vez em que Marta o tinha deixado completamente assustado e fora de si.
O seu relacionamento tinha cerca de dois meses e já viviam juntos em casa de Marta.. Era uma noite em que  regressavam da Ericeira. Uma noite em que tinham ido jantar com um casal de amigos de Afonso,  Paulo e  Simone.
Marta tinha manifestado algum agrado por Afonso se mostrar interessado em apresentá-la aos seus amigos. Até porque ela dizia não os ter. Nunca até aí tinha falado de amigos, tirando uma irmã que Afonso ainda não conhecia e que vivia em Lisboa, Marta era uma pessoa sozinha....aparentemente.
Paulo e Simone eram dois amigos de infância de Afonso, daqueles amigos que ele considerava verdadeiros. Estavam habituados a confidenciar segredos entre si, alguns até bastante íntimos. Eram quase sempre os primeiros  a saber das novidades, embora ultimamente não estivessem juntos com tanta assiduidade, falavam muitas vezes por telefone, e já sabiam da nova paixão de Afonso.
Ele já lhes tinha feito uma descrição pormenorizada de como se sentia no paraíso. Achava que finalmente tinha encontrado a mulher da sua vida, tendo-lhes manifestado que o seu estado era o de um homem que vivia agora em perfeita harmonia com a felicidade.
Exemplarmente bem, era assim que tinha decorrido todo o jantar. Aparentemente tinham gostado ambos de Marta, assim como ela tinha simpatizado com eles. Falaram aberta e descomprometidamente sobre os mais variados e diversos assuntos, riram, prometeram voltar rapidamente a encontrarem-se. Simone até sugeriu que se voltassem a encontrar brevemente, talvez organizar um petisco em casa deles, que foi bem acolhido pela parte de Marta. Enfim um serão bem passado na companhia de verdadeiros amigos que eram.
O pior estava para vir...
Na parte final do jantar, nos digestivos, o telefone de Afonso colocado em cima da mesa de jantar tocou duas vezes e desligou-se logo em seguida com falta de bateria.
Marta perguntou.
- Quem era?
- Não faço ideia - O telefone ficou sem bateria, quando chegar ao carro já o carrego e vejo quem era – Disse Afonso.
- Devia ser a outra a dar-te um sinal – Disse Marta em tom de brincadeira.
Todos se riram, Marta ainda voltou a brincar com a situação, dizendo que era concerteza uma paixão antiga que ele tinha. Algum caso que ele ainda mantinha em segredo, sem o dar por terminado.
Afonso percebeu que Marta estava tentando perceber alguma reacção da parte de Paulo ou de Simone.
- Não sejas tonta, sabes que só tenho olhos para ti, e depois não sei se já repararam, mas estou magríssimo, quase tísico, esta mulher é insaciável, não me dá um minuto de descanso, temos dias de começar na cozinha, percorrer a sala, devastando a mobília e acabarmos debaixo do carvalho, no jardim, não é amor?  – Disse Afonso abraçando e beijando Marta.
- Envergonhada com um ligeiro rubor na face, Marta respondeu:
- Ah!?! Que mentiroso! Não acreditem! Não tens vergonha Afonso? O que vão os teus amigos pensar? Ainda por cima mal me conhecem, ainda vão julgar que é verdade.
- E não é? - Insistiu Afonso – Como daquela vez quando cheguei a casa e eram velas acesas por tudo o que era sítio, estavas semi nua, na cama de rede, com aquele ar lânguido e me rasgaste a camisa. Sabem que temos uma cama de rede colocada a um canto da sala lá em casa?
- Oh Afonso pára por favor! Já chega, não estou a achar muita graça!
Respeita-me e respeita os teus amigos. – Disse Marta já com um ar de zangada, olhando com vergonha para Paulo e Simone, que se riam, não manifestando qualquer ar de reprovação.  Insistindo mesmo para que lhes contassem mais pormenores.
- Pronto, desculpa lá querida, eu exagerei, o que quis dizer é que só o
fazemos nos dias ímpares. – Disse ainda .
E continuas!?! Bem... e se pedíssemos  a conta? Já começa a ficar tarde, e nós ainda vamos para lá de Lisboa uns bons quilómetros, não é amor? – Lembrou Marta.
Todos concordaram, pedindo a conta, pagando e saindo logo de seguida.
Andaram ainda uns bons trezentos metros até ao carro de Afonso, ora de mão dada, ora abraçados, parando de quando em vez para se beijarem apaixonadamente, pois era isso mesmo que sentiam um pelo outro, uma ardente e forte paixão.
Paulo e Simone iam mais á frente, olhando para trás sempre que se atrasavam, e lembrando-os que Afonso afinal parecia ter razão em relação à insaciável Marta, apressando-a deste modo  a deixar de beijar Afonso e aproximarem-se deles logo em seguida.
Chegaram ao carro, entraram, Marta lembrou a Afonso para carregar o telemóvel, este já em andamento assim o fez, reparando que estava um número não atendido, visível mas completamente desconhecido,
Porque não ligas para saber quem é? Pode ser alguma coisa importante. - Lembrou Marta.
- Tenho mais que fazer. Era o que faltava, quem ligou que ligue novamente – disse despreocupado.
Estás com receio que seja ela? – Marta acentuou o “ela” de uma forma estranha com um sorriso não só irónico mas também de alguma malvadez.
Afonso brincou, depois de uma pequena hesitação:
- Ligo-lhe amanhã, quando estiver sozinho.
Marta:
- Acredito que é isso mesmo que vais fazer- Afirmou convictamente Marta.
Paulo percebendo que aquela conversa estava a entrar por caminhos que iriam dar maus resultados, perguntou a Afonso, disfarçadamente como estavam as coisas a correr no seu emprego, já que não tivera oportunidade de o fazer durante o jantar. Afonso deu um suspiro de alívio, agradecendo em silêncio a Paulo, pela oportunidade de poder falar de outra coisa, sem ter de se aborrecer com Marta.
Estava aborrecido, Marta pela primeira vez, irreconhecível, estava a tomar uma atitude patética, de ciúme que nada lhe agradava, iria ter uma conversa com ela, quando estivessem a sós.
Não lhe agradavam este tipo de atitudes. Sentia-se bastante incomodado. Questionava-se sobre o comportamento de Marta à frente dos seus amigos. Mais que não fosse por isso mesmo, que Marta o fizesse quando estivessem sozinhos, embora não concordasse com essa forma de estar. Ciúme, desconfiança, eram apêndices que não tolerava muito bem numa relação, e isso valia para ambos.
Marta tinha assumido um silêncio quase fúnebre e solene, limitava-se a olhar em frente para a estrada, parecendo olhar fixamente um só ponto. Permanecia inerte com as mãos sobre o colo, numa atitude que desagradava a Afonso. Aos poucos esse silêncio foi contagiando os três, como se tivesse aproximado um denso nevoeiro, invadindo as
suas emoções e as suas almas. No leitor de CDs, a pedido de Simone,
amante de musica clássica, sabendo  que Afonso  também a apreciava,
ouvia-se o Adágio de Albinoni, contribuindo dessa forma para um ainda maior ambiente soturno e de mal estar.
Perto de Lisboa, a escassos minutos da casa de Paulo e Simone, quando se preparava para mudar o CD, o telefone tocou novamente.
Marta, como se acabasse de acordar de um sono profundo e letárgico, desviou o olhar lentamente mas firme na direcção de Afonso. Era um olhar frio, carregado de uma inusitada e sórdida insinuação.
- Não atendes? – Disse com um ar de ironia, como se estivesse à espera daquele momento durante a viagem, ansiosamente.
Afonso desviando o olhar, visivelmente incomodado, com um ar comprometido, mas sem qualquer razão aparente, pegou no telefone, reparando que o número era exactamente o que tinha aparecido antes.
- Liga o mãos livres, vais a conduzir não te esqueças – reclamou Marta. Não tinha dúvidas, Marta queria saber quem lhe estava a ligar, por qualquer razão intuitiva, percebeu que algo de desagradável se iria passar nos momentos seguintes.
- Estou? – Disse sem conseguir disfarçar o nervosismo que o assaltava. Ninguém respondeu, silêncio absoluto.
- Estou ? – Voltou a repetir.
- Olá Afonso, está tudo bem contigo? Um arrepio subiu-lhe pela espinha.
-  Nunca mais disseste nada, estava a ficar preocupada contigo.
Afonso estava incrédulo, aquela voz não lhe era completamente estranha, mas não fazia ideia de quem era, uma voz terna, de mulher relativamente nova,  carregada de  uma sensualidade e intimidade apropriada de alguém que o conhecia demasiado bem.
- Quem fala ? – Insistiu novamente, enquanto olhava para Marta, encolhendo os ombros, num assomo de admiração, mas não conseguindo esconder um ar de comprometimento.
Isso irritou-o. Nada tinha escondido de Marta, não a tinha enganado, nunca!
- Não sabes quem é? Mas ela parece conhecer-te bem Afonso! -Ironizou Marta, olhando para o banco de trás, para Paulo e Simone, ao mesmo tempo que lhes perguntava se não achavam que sim.
- Oh ! Desculpa estás acompanhado, ligo-te noutra altura – Ouviram 
dizer do outro lado, ao mesmo tempo que o telefone se desligava.
Marta levantando um sobrolho, apenas olhando em frente, soltou:
- Que conveniente, desligou, deixa lá – disse colocando a sua mão esquerda em cima da de Afonso.
- Amanhã ou depois falam a sós, e assim põem a conversa em dia- rematou, não sem antes voltar-se novamente para trás e largar um sorriso, como que dizendo a Paulo e Simone, vêem ?, Então o que acham do comportamento de Afonso? Eu não dizia?
Afonso  profundamente irritado, tentou várias vezes ligar, mas em vão, nem para as mensagens, o telefone estava definitivamente desligado.  
Marta atacou sem desviar o olhar da estrada:
- Não insistas Afonso ! Já todos vimos que a moça está interessada em falar contigo, mas a sós. Vais ver que amanhã já conseguem falar um com o outro, ou então quando souber que estás sozinho. Vá não desesperes. Olha já chegámos a vossa casa, Simone. Foi rápido – Cortou Marta não dando hipótese de resposta a Afonso, e assim comprometendo-o.
Assim era, estavam a vinte metros do prédio onde morava o casal, que visivelmente aliviados por não terem de participar naquela discussão, ainda perguntaram educadamente se eles não queriam subir, sabendo de antemão qual a resposta.
Marta não saiu do carro, adoptando uma conveniente posição de vítima com o que tinha acabado de  suceder. Ao contrário, Afonso abriu a porta, saiu para se despedir, ao mesmo tempo  que era rápida
e estranhamente confortado por Paulo, como se o desculpasse e acreditasse em Marta, não em Afonso.
Ficaram de ligar em breve, Afonso voltou a entrar, acenaram por uma última vez ao casal que entrava no prédio e arrancaram rumo a casa.
Os cerca de trinta minutos de trajecto até V. Franca, fizeram-nos  num profundo silêncio. Nem Marta nem Afonso tinham vontade de falar, não conseguiam desviar o olhar da estrada. Sairiam da auto estrada e Afonso tomou coragem:
- Amanhã vou saber em que nome está este número. Vou-te provar que não conheço esta gaja ok?
 Obteve um já doentio e esperado silêncio.
- Importas-te de falar comigo Marta ? Eu estou a dizer-te a verdade, se não acreditas em mim, se insistires em não falar comigo, quando chegarmos a casa, pego nas minhas coisas e vou-me embora está bem? -  Insistiu ameaçadoramente.
Marta com os olhos marejados em lágrimas, soluçando, respondeu-lhe, ameaçando abrir a porta do seu lado, e sair em andamento.
- Isso ! Faz isso, deve ser o que ela está à espera. Escusas de te incomodar em me levar a casa, eu saio já aqui! Não tens vergonha tens outra e andas a enganar-me, eu para ti devo ser uma merda – disse, já num tom de voz nitidamente alterado, libertando-se do cinto de segurança e abrindo a porta do carro.
- Estás louca ? Fecha a porta, queres ter um acidente? O que te está a dar? Mas que parvoíce! Fecha a porta!
- Estou maluca sim! Se não parares saio assim na mesma! Enganaste-me ! Fizeste-me o mesmo que fizeste às outras ! Usaste-me e gozaste com o meu amor! Pára a merda do carro!
Afonso não queria acreditar no que estava a acontecer. Marta estava completamente fora de si. Nunca tinha visto nada semelhante.
A calma, doce e terna Marta já não se encontrava ali. No seu lugar estava uma mulher possuída pela loucura e insanidade, pelo diabo.
Vendo o transtorno em que se encontrava Marta, também assustado por perceber que ela iria sair do carro em andamento, parou, ela saiu.
Estava à entrada da ponte, na pequena rotunda de acesso, saiu também do carro, ligando os sinais intermitentes, enquanto incrédulo seguia Marta com um olhar estupidificado. Ela dirigia-se para a ponte, na firme intenção de a atravessar a pé. Este tinha sido o melhor dos seus pensamentos, porque o pior... bem o pior levou-o a gritar por Marta como quem chama por uma criança perdida, desesperado, ao mesmo tempo que começava a correr na sua direcção. Esta tinha acelerado o passo, estava visivelmente a tentar  fugir de Afonso. Os carros nos dois sentidos começavam a abrandar, pensando talvez que um louco qualquer estava a perseguir uma pobre mulher indefesa.
- Pára Marta! – Gritou Afonso com as mãos na cabeça- Pára! O que estás a fazer? – Estava a dez metros de Marta e esta tinha acabado de transpor os corrimões de segurança da ponte, sentada para o lado de fora, mostrando intenção de se lançar à forte corrente das águas  escuras e barrentas do rio Tejo.
- Vais-te embora não é? Vais voltar para a outra? Então vai já! Não esperes, nem te preocupes comigo. Amanhã vão-me encontrar se calhar já no mar. Vai Afonso! Porque esperas?
- Marta, não faças nenhuma loucura por favor. Vamos falar. Vá entra no carro, vamos para casa.  Eu prometo-te que não me vou embora, só temos de falar. Não achas que o nosso amor vale isso?
- Mentiroso! Como se chama ela ?
Marta estava longe de se acalmar. Afonso estava bem mais perto de um ataque de nervos. Tinha-se aproximado dela o suficiente para de um salto a agarrar, mas começava a recear que ela estivesse a falar verdade, que se quisesse mesmo atirar ao rio. Era demasiado arriscado. Já existia uma pequena multidão, cerca de um vintena de condutores curiosos e incrédulos tinham deixado as suas viaturas e estavam a menos de trinta metros dos dois. Em silêncio como se esperassem um funesto desfecho a qualquer momento. Outros começavam a aproximar-se no sentido inverso. Afonso reparou que um homem de meia idade, bem constituído, com ar de militar lhe fazia sinal. Era o que estava mais próximo deles. Com um ar confiante.
- Marta ! – gritou o homem, com uma voz forte e bem colocada. Nesse momento Afonso instintivamente saltou na direcção de Marta, agarrando-a com os dois braços, por baixo do peito dela, aproveitando a momentânea distracção de Marta que se tinha virado por um segundo na direcção do homem. Quando o fez, Marta olhou para ele, balbuciando com a voz trémula:
- Não me deixes Afonso. Nunca me deixes amor- disse-o enquanto os seus braços se entrelaçavam no pescoço de Afonso, apertando-o como uma criança assustada. O seu olhar foi desfalecendo e quando Afonso lhe quis responder Marta tinha acabado de desmaiar.
- Estava com receio que não percebesse o meu sinal- Disse-lhe o homem que entretanto se acercara deles.
- Conhece-a? – Perguntou-lhe Afonso, ainda mal refeito, amparando Marta, que se mantinha inerte, tentando com umas pequenas festas acordá-la do desmaio.
Entretanto alguém se acercou deles com uma garrafa de água e prontamente, passaram-lha pela face gelada.
Marta começava a dar sinais de acordar.
- Não! Não a conheço, mas você fartou-se de chamar pelo nome dela e vi ali uma chance única. Ela ia atirar-se da ponte.
Afonso ficou aterrorizado. Começava agora a acordar daquele pesadelo. Sentiu um imenso tremor a invadir-lhe o corpo. As suas pernas e os seus braços tremiam sem que ele os pudesse controlar.
- Sou sargento da GNR, e já vi dois casos destes. Um teve um final feliz, o outro foi trágico, foi...
- Ajude-me a levantá-la, quero levá-la para o  carro –  Cortou  Afonso, com o desejo que  o  homem  se calasse.  Não  estava  com  vontade nenhuma em  saber de mais casos.
- O que se passou para ela querer fazer isto? É  a  sua mulher?  Vocês estão com problemas? – Disse  enquanto  ajudava Afonso  a  levantar Marta.
- Eu ajudo-o a levar a  sua mulher,  acho  que  você   a deve  levar  ao hospital, é aqui perto.- Insistiu.
- Afonso leva-me para casa! Quero ir para casa!- Marta acordava finalmente. Olhava para o homem com um olhar acusador e de desconfiança. Isso deixou-o perturbado. A tal ponto que até chegarem ao carro, se manteve um silêncio.
- Sente-se melhor? Venham que eu levo-os ao hospital, tenho lá pessoal médico conhecido, examinam-na rapidamente - disse o homem com uma vontade e autoridade bem intencionada.
Marta sem deixar de manter um olhar odioso e de reprovação para com o homem. Como se o estivesse a culpar pela fracassada intenção de suicídio, disse já totalmente recomposta:
- Já disse! Quero ir para casa! Ainda não percebeu? Tenha uma boa noite!
O homem estava petrificado. A sua pose mostrava algum desalento e olhando para Afonso, disse:
- Eu só quero ajudar- disse-o com a firme convicção que Marta estava a ser injusta com ele. Extremamente injusta.
No entanto Marta permanecia firme nas suas intenções, essa sua determinação foi preponderante, o homem calou-se.
Afonso preparando-se para entrar no carro, estendeu-lhe a mão, agradeceu-lhe e pediu desculpa pela atitude de Marta. Estava tudo bem, não levariam muito tempo a chegar a casa. O homem ainda tentou falar qualquer coisa, mas já Afonso entrava no carro, colocando o cinto de segurança em Marta, que permanecia sentada, imóvel, olhando o sargento.
As pessoas entravam nos seus carros, comentando o sucedido, outras
ficavam para ver, talvez curiosas de um outro desfecho. Afonso voltou a agradecer com um gesto, ao mesmo tempo que arrancava na direcção de casa. Sentiu os olhares incrédulos das pessoas que se aproximavam do sargento, olhou pelo retrovisor, a meio da ponte, o sargento mantinha-se no mesmo local, vendo-os afastarem-se,  inerte.
Fizeram o percurso até chegar a casa, no mais absoluto e sombrio silêncio, mais uma vez calados. Afonso ainda tremia, relembrando e imaginando como seria se Marta tivesse consumado aquela tresloucada intenção. Não se atrevia  a falar com Marta.

















sexta-feira, 2 de março de 2012

Inquietude ou a solidão dos sentidos...

 

 

Prólogo




A tarde aproximava-se do fim, naquele dia  de Janeiro. O céu continuava  num azul frio e limpo e no horizonte o sol majestoso dava sinais de começar a sucumbir à noite.

Sentado no alpendre, sobranceiro ao vasto e bem tratado jardim, Afonso olhava em redor, como se procurasse algo perdido. A relva estava bonita, cortada rente e verdejante. Ainda a reflectir os últimos raios de sol, cintilantes gotículas de água brilhavam nas suas esguias e curtas folhas. Tinha acabado de regar o jardim. Esta seria a última vez que o faria, tinha essa certeza. Das folhas das pequenas palmeiras, plantadas simetricamente, embaladas por uma suave brisa, escorriam pequenas gotas de água, parecendo-lhe lágrimas, assim como o suave balançar das folhas lhe parecia um adeus final e um agradecimento profundo e sentido por tudo o que fizera por elas nos últimos meses.


Puxou de um cigarro, acendeu-o e seguindo o fumo que se erguia no ar, sentiu algo estranho e ambíguo, um misto de tristeza e de alegria. Tristeza por saber que seria a última vez que estaria ali, tinha de se esquecer daqueles nove meses e meio, que lhe tinham trazido imensos desgostos e mágoa, e o facto de não querer recordar nunca mais isso, deixava-o visivelmente incomodado. Alegria por sentir finalmente, depois da sua decisão algo apressada mas ponderada vezes sem conta, que estaria livre de um pesadelo.
Do outro lado do jardim, no pátio de saibro claro, virado para os portões completamente escancarados, permanecia o seu carro com o motor ligado, como se estivesse preparado para uma fuga rápida, depois de um assalto ou de outro crime qualquer.
E era isso mesmo que estava em curso, uma fuga rápida, carregado com os seus haveres mais pessoais e íntimos, aquilo que habitualmente depois de uma catástrofe ou cataclismo, se consegue recolher, alguns despojos de guerra, isso uma guerra, aliás duas, a que terminava e a outra que se avizinhava, talvez tão cruel nas consequências como a primeira que termina ali, naquele momento.
Os bancos de trás, bem como o da frente, estavam repletos, iria ter uma condução um pouco desconfortável, nos cerca de oitenta quilómetros que o separavam da casa dos seus pais em Lisboa.
Era para lá que tinha planeado voltar, para casa dos seus pais, por um tempo indeterminado pois também eles nunca tinham depositado muitas esperanças naquela relação, e já se tinham oferecido para o poder recolher em sua casa se alguma coisa não corresse bem. E de facto as coisas não tinham corrido bem, antes pelo contrário. Correram sempre mal e tinham-se agravado nos últimos dias. Esta não era a primeira vez que tinha tentado sair. Recordava-se de todas as outras, treze para ser mais exacto, e não era simplesmente sair, era mesmo fugir. Escapar de um relacionamento mórbido, onde o ciúme doentio e amplamente sórdido, imperavam. Imposto por alguém que agora comparava e via como uma psicopata. Alguém que não tinha conseguido nem viver uma vida própria pacificamente nem estar em paz com ele.
Nas outras vezes, quando o tentou fazer, não estava sozinho como agora, nunca tivera a oportunidade que lhe surgira nesse dia, por isso mesmo, na semana anterior, tinha avisado os seus pais que se preparassem para o receber, pois era sua intenção levar a cabo essa fuga na primeira vez que surgisse uma oportunidade para o fazer.
Surgira essa hipótese, Afonso sabia que talvez fosse mesmo a derradeira e única, sabia que se não a aproveitasse iria arrepender-se para o resto da vida. O cerco fechava-se, sufocando-o dolorosamente, afastando-o dos mais elementares simples gostos e prazeres que ele tinha pela vida.
Já quase não tinha amigos e os poucos que conseguira manter, nunca deram muito crédito à sua manifesta e inconsolável tristeza. Portanto só lhe restavam os seus pais, os únicos que viram nas poucas vezes que estivera a sós com eles, a sua amargura, a sua vontade em desistir de tudo, inclusive da vida, tal era a infelicidade que Afonso mostrava.
Durante esses breves momentos de recordação da sua infeliz existência, dera conta que o seu telemóvel, que mantinha no bolso do casaco, tinha vibrado várias vezes, até lhe perdera a conta, não precisava de o atender para perceber quem  estava desesperadamente a tentar falar com ele, sabia perfeitamente que Marta “sentia” que algo estava para acontecer e não era bom, para ela. Há já alguns meses que tinha retirado o som do telefone, pois era manifestamente insuportável o que ela lhe fazia, vinte, trinta chamadas ou mais por dia, e nos dias normais, pois tudo piorava nos outros dias, em que dela se apoderava uma estranha e doentia obsessão, ao ponto do cargo que desempenhava na sua empresa se encontrar em risco. Exercia uma chefia na área comercial, tendo chegado a abandonar clientes em reuniões, adiar projectos profissionais, a abdicar de viagens de negócios,  não só pelos insistentes telefonemas, mas também por diversas vezes ter de efectuar um regresso a casa, mais ou menos atribulado, ou pura e simplesmente não poder sair de casa, pelas mais absurdas razões.
Determinado, desta vez não iria voltar atrás, como de todas as anteriores, não iria cair na chantagem emocional de quem muitas vezes tinha chegado a simular inclusivé o suicídio, provocando falsos desmaios, após supostamente ter ingerido uma lamela de comprimidos, espumando da boca, trancando-se muitas vezes na cozinha, com o gás aberto, dizendo que se matava e ameaçando de faca em punho cortar os pulsos se ele saísse da vida dela. Ou escondendo as chaves dos portões de ferro, que o deixavam encarcerado na propriedade em que viviam completamente isolada, e que se encontrava a um bom par de quilómetros da  mais próxima povoação,  Salvaterra de Magos.
Envergonhava-se de si próprio, por não ter tido coragem até aí de o ter feito mais cedo, pois sempre tinha sido uma pessoa destemida e determinada, sem receios de enfrentar fosse o que fosse, sempre tinha corrido riscos, é verdade que alguns calculados, mas sempre sem grande medo ou receio, mesmo os riscos que muitas vezes nos levam à infelicidade. E os que tinha corrido para ser feliz ao lado de Marta teriam assustado qualquer um, pois tinha a perfeita noção que o que decidira nove meses e meio antes, deixar uma vida confortávelmente alicerçada na cómoda mas instável situação de recém divorciado, tinha sido uma das mais difíceis de que se recordava.
Bom, mas isso agora iria fazer parte de um passado, doloroso e recente, com indisfarçáveis cicatrizes, mas para ele já estava a fazer parte do passado.
À sua frente, no muro alto que circundava a propriedade, pousou um corvo?!? Mau agoiro? Não achou que o fosse, apenas sentiu uma fria estranheza, sem chegar a ser uma grande admiração, pois o que se tinha passado por ali, o que lhe tinha acontecido  nos últimos tempos já não o deixava ficar incrédulo, ou mesmo admirado, ainda assim, pensou por breves instantes naquilo que Marta lhe costumava dizer de cada vez que viam um corvo negro, um corvo sozinho era sempre sinal de um mau presságio. Talvez Marta lá no seu negro e maldoso íntimo tivesse razão,  Afonso agora gostava que isso fosse verdade, entre outros, podia ser que fosse um mau sinal mas apenas para Marta Desta vez iria deixar de o ver em definitivo. Esse instante foi tão breve como a presença da mórbida e negra ave, nesse preciso momento em que ambos pareceram trocaram um olhar, como se tivessem reconhecido e comparado a sua incontornável solidão. O corvo depois de um arrepiante e curto grito, levantou voo, e enquanto via o negro a desvanecer-se no céu, levantou-se, olhou por uma última vez em redor, o jardim estava lindo, e Afonso sentia um pequeno orgulho, não apenas pelo  esforço e meses de trabalho, mas por ter feito renascer aquele jardim, que conheceu moribundo e abandonado quando ali chegara. Despediu-se como se de uma pessoa  se tratasse, apagou debaixo do tacão do seu sapato, com indisfarçável nervosismo o que restava do seu cigarro e sem olhar para trás dirigiu-se ao carro, sentou-se, suspirou, deixou que um sorriso interior de efémera felicidade o invadisse. Subiu o volume do rádio e arrancou com velocidade...
No seu olhar, um brilho entrelaçado de raiva e de angústia quase não o deixava ver pelo espelho retrovisor os escancarados e pesados portões de ferro que propositadamente tinha deixado abertos...Sabia que isso deixaria completamente fora de si Marta, sempre assim fora, os portões fechados e o muro que cercava a propriedade eram muitas vezes a forma que Marta encontrava para fechar as suas vidas apaixonadas para o exterior. Ao deixá-los assim abertos não só a deixaria irritada como lhe deixava a sensação de libertar toda a sua vida que não queria deixar lá dentro...encarcerada.





quinta-feira, 1 de março de 2012

Inquietude ou a solidão dos sentidos...




I Capítulo



Já na estrada de alcatrão meio esburacada, o ponteiro do conta quilómetros avançava vertiginosamente. O seu pé direito pisava com vigor o acelerador como se receasse alguém que o perseguisse, como se tivesse acabado de cometer um crime e dali quisesse fugir rapidamente sem deixar hipótese a alguém de o apanhar. Conduzia desenfreadamente como um louco, numa corrida, numa fuga desesperada, o Mercedes CLK de gama alta  resistia, parecendo ele com vida própria querer ser cúmplice naquela fuga.
Nesses  breves e simultãneamente longos minutos de adrenalina, sentiu que a sua atitude era a de um cobarde, que raio! Ao que  chega um  ser  humano,  pensou. 
Não encontrava justificação para um acto que sempre classificara de cobardia, o de fugir, e isso irritava-o, mas tinha de ser assim, era impensável voltar atrás, na decisão e no rumo.
Um pouco mais de dois minutos, foi o tempo que demorou a atravessar a povoação e a entrar na estrada que atravessava a pequena lezíria. Recordou que Marta aquela hora, estaria possivelmente a caminho de casa e não seria de estranhar que a qualquer momento, no sentido contrário se cruzasse na estrada com ela. Então decidiu ligar-lhe. Sobre o não atendimento do telefone minutos atrás, desculpar-se-ia com o facto de se encontrar a conduzir, e assim poderia também aperceber-se do sítio exacto onde ela estaria nesse momento, para eventualmente ainda conseguir mudar para a estrada de terra batida que atravessava os longos campos de arroz.
Reduziu a velocidade, pegou no telefone, mas não necessitou de lhe ligar, pois ela estava a ligar-lhe nesse preciso momento, atendeu e como de costume o interrogatório ditatorial começara. Onde estava para não atender o telefone, com quem estava, porque a fazia sofrer assim? Disse-lhe exactamente o que tinha pensado dizer. Não a pudera atender, porque estava a conduzir. Mentiu-lhe dizendo que ia a caminho de casa, era provável que até chegasse primeiro, e de seguida perguntou-lhe onde estava ela. Marta depois de outras tantas  desconfiadas observações, abeirando-se de um puro e injustificado histerismo, completamente alterada, lá se acalmou um pouco, confessando-lhe que estava na auto estrada, perto de Vila Franca de Xira. Afonso sentiu-se desconfortável, pois de onde se encontrava até Vila Franca, ainda eram cerca de dez minutos, e a andar depressa. O risco que corria de se cruzar com Marta era iminente. Disfarçando o seu inevitável nervosismo, afirmou que se encontrava à saída da segunda circular, ainda em plena Lisboa, portanto uns bons quilómetros atrás dela. Pediu-lhe para que fosse mais devagar, pois assim ainda haveria chance de a apanhar e poderiam chegar ao mesmo tempo. Marta pareceu acreditar e disse-lhe que o amava muito. Pediu-lhe perdão pela discussão, que mais uma vez tiveram nessa manhã, mais uma entre muitas outras. Quando chegassem a casa iria compensá-lo, talvez um jantar especial seguido de mais uma noite de volúpia sexual. Esta seria a última vez que desconfiaria dele, Acreditava que Afonso nunca a enganaria, mas neste momento Afonso já não a ouvia, apenas se recordava dos inúmeros pedidos de perdão, das violentas discussões, dos momentos infindáveis de infelicidade que Marta lhe tinha proporcionado. Nos curtos, mas constantes momentos de prazer sexual, que se seguiam aos aterrorizadores e ameaçadores gritos, acompanhados da pseudo auto mutilação.
Por momentos esqueceu-se do essencial, tinha de andar depressa, disse-lhe que a perdoava, que a amava também, que falariam com calma quando estivessem juntos, fez-lhe  crer que era uma questão de
minutos e isso pareceu acalmá-la, deu-lhe um beijo ao mesmo tempo que desligava o telefone.
Por esta altura já o carro voava novamente, tinha de entrar na auto estrada rapidamente, e esse minutos pareceram-lhe anos, nunca achara a distância tão comprida, tão dolorosamente longa. A paisagem que outrora o seduzira, que tantas vezes lhe deixara um eterno raiar de felicidade no olhar, essa mesma que o obrigava ás vezes a abrandar e mesmo a parar para contemplar o rio Tejo a possuir languidamente as terras baixas dos arrozais, a acariciar nas marés altas os terrenos já de si humedecidos, mas desejosos dos seus braços, parecendo dois amantes, a terra fértil e o rio fecundo e ávido na sua sedução.
Fora neste idílico e romântico cenário que tinham feito amor pela primeira vez, também assim num fim de tarde de céu limpo, com o sol no seu ocaso como testemunha, era princípio de Maio, e os dias primaveris já crescidos proporcionavam tardes quentes e soalheiras, na lezíria ribatejana, era também a primeira vez que se deslocava a casa dela.
Recordava agora como se sentira nesse dia, tinham acabado de se conhecer uma semana antes, e tinham passado a tarde desse sábado juntos, lancharam e passearam pela  Expo, ela falara-lhe da casa que tinha em Salvaterra de Magos, meio abandonada, um jardim enorme por cuidar à muito. Falara-lhe de como era bom acordar de manhã, vir descalça até ao alpendre, sentar-se numa velha cadeira de balouço, ouvir o matinal chilrear dos pardais num vai vem constante entre o telhado e o velho carvalho plantado no jardim. Depois contara-lhe como era o por do sol, das tardes infindáveis, dos intermináveis momentos que passava a olhar o horizonte, como se à espera de alguém, das noites que chegavam sempre demasiado depressa e que a obrigavam a recolher-se numa casa fria, sozinha, numa imensa e desesperada solidão.
Tinha-lhe descrito na perfeição as gentes, a terra, a sua situação de mulher divorciada, de um marido, da família e também da vida. Tinha reparado que enquanto decorria essa exaustiva mas emocionada descrição as lágrimas se assomavam no seu olhar, despenhando-se lentamente pela sua face, e ele que habitualmente era uma pessoa fria, egocêntrica e calculista tinha sentido uma ponta de emoção e começara a sentir uma imensa atracção por ela, não só emocional mas também física.
Marta era muito bonita, de estatura média, magra, um rosto bem delineado, salpicado com umas pequenas sardas que lhe davam um ar de adolescente malandra, os seus olhos verdes acizentados demonstravam uma avidez pela vida constante, ao mesmo tempo que se entristeciam e embaciavam com a descrição da sua solidão. Tinha cabelos louros, que não sendo a sua cor natural completavam na perfeição a sua face de menina perdida.
E era nisso que Afonso mais reparara e o interessara. Uma mulher só, com ar de estar perdida, num mundo que já não compreendia, num mundo que pela sua descrição a tinha abandonado.
Os seus seios eram oponentes, aliás até lhe tinham parecido desproporcionados face ao seu corpo franzino mas aparentavam ser firmes e perfeitos, a sua boca e os lábios finos quando se alongavam no seu sorriso tímido mostravam uns dentes brancos e bem cuidados.
Mas foram as suas mãos que o deixaram mais impressionado, não só pelos seus dedos esguios e perfeitos, mas sobretudo pelo seu toque. Ainda não se tinham beijado na face, ela insistia que se deveriam cumprimentar de aperto de mão, pois ainda não tinham intimidade para tanto, achara estranho e ridículo e ao mesmo tempo intrigante, o que o deixava ainda com mais vontade de a seduzir. O seu aperto de mão era forte e vigoroso como se de um homem se tratasse, mas a sua pele era branca e aveludada e de cada vez que apertava a sua mão sentia uma vontade tremenda de a erguer e beijar, o que acabaria por fazer nesse dia.
Tinha reparado que ela embora com uma evidente timidez, ou talvez um receio infundado, pois seria mais isso, como se veio a revelar mais tarde, também parecia sentir-se atraída por ele.
Sentindo que nada teria a perder e que no fundo era um bom pretexto para continuar a sua já evidente vontade em seduzi-la arriscou e perguntou-lhe quando é que ela o levaria a conhecer a sua casa, esse local idílico, onde ela se sentia tão amarguradamente sozinha. Marta depois de conveniente e disfarçadamente se mostrar pouco á vontade, respondeu-lhe que se cada um fosse no seu carro, querendo-lhe dizer com isto que assim ele poderia e deveria regressar sozinho, não dando azo a que ele pudesse lá ficar. Teria gosto em mostrar-lhe a casa nesse mesmo fim de tarde, frisando que era a primeira vez após os quatro longos anos de divórcio, que lá levaria alguém... homem claro. Pois a sua condição de divorciada e sozinha, seria motivo de falatório numa terra onde todos se conhecem e se cumprimentam regularmente.
Assim fizeram, cada um no seu carro. Ele seguiu-a e já no caminho começara a congeminar e a imaginar como iria ser, sentia um enorme nervosismo e receio pois à muito que não sentia uma atracção tão forte por uma mulher. Ela parecia reunir tudo aquilo que o atraía numa mulher, era bonita, era muito educada, tinha um olhar penetrante, como se o quisesse conhecer no seu mais profundo íntimo. Parecia também simpatizar e estar interessada nele, e o seu estado era igual ao dele...descomprometida. Afonso achava que depois do seu atribulado divórcio, tinha encontrado realmente alguém em que valesse a pena apostar, pois todos os relacionamentos que tinha tido anteriormente, tinham sido mais uma série sucessiva de fracassos. Nos dois anos imediatamente a seguir à sua separação tinha levado uma vida de boémia e começava a ficar um pouco saturado, farto e até decepcionado com ele próprio. Eram constantes as mulheres que entravam e saíam na sua vida, sempre com passagens curtas e sem grande paixão. Marta sim, era uma  mulher  espantosa, sem aparentar qualquer tipo de futilidade, demonstrando também ela que estaria interessada numa relação duradoura, alicerçada em valores que ele julgava já não existirem nos tempos que correm.
O seu coração palpitava só de pensar nisso, sentia que estava definitivamente apaixonado.
Saíram da auto estrada em Vila Franca. Começara a elaborar um  plano, quando entrassem na sua casa, aproveitando talvez o final de tarde, no alpendre que ela lhe tinha descrito, colocar-se-ia ao seu lado, pegar-lhe-ia na mão e tentaria com um comentário breve ao cenário que ela lhe tinha descrito do por do sol, beijá-la novamente pois tinha na memória todos os pormenores de que ela parecia ter gostado, e esse era um dos que sobre o qual ela tinha manifestado algum nervosismo, pouco à vontade, mas ao mesmo tempo um sorriso de indisfarçável prazer. O que sucederia a seguir já não imaginava com muita clareza, pois essa excitação fizera-lhe passar  um turbilhão de imagens sem nexo mas extremamente apetecíveis, apaixonada e sexualmente excitantes.
Ainda estaria a pensar nisso quando ela lhe fez sinal com o braço de fora da janela do carro para abrandar. Achou que ela queria mostrar-lhe algo, ou dizer-lhe alguma coisa antes de chegar a casa.
Ela parou o carro, encostando-o à berma do lado direito, na estrada estreita e meio esburacada, ele fez o mesmo parando o carro logo atrás do dela.
Saindo os dois ao mesmo tempo perguntara-lhe, o que tinha sucedido, se algo não estava bem, ela respondeu-lhe, que estava tudo bem, ainda faltavam alguns quilómetros até chegar a casa dela, mas gostava de lhe mostrar uma coisa. Pediu-lhe para trancar o carro, pois o que lhe queria mostrar estava a alguns metros dali e teriam de atravessar a estrada para o outro lado. Disse-lhe que não se preocupasse pois ali prácticamente não existia trânsito e o seu carro estaria seguro até ao seu breve regresso. Assim fez e ao dirigir-se para
o local onde ela estava, ela estendeu-lhe a mão.
Sentiu um arrepio enorme pela espinha, as pernas vacilaram, o coração parecia querer saltar-lhe do peito, sentiu um desconforto enorme, as suas mãos estavam completamente molhadas, quis dizer  algo, mas nada lhe ocorrera naquele momento, rápida e disfarçadamente tossira, ela perguntou-lhe se estava tudo bem, se não se importava de fazerem aquela paragem, ele ainda a tentar recompor-se, disse-lhe meio a brincar que se valesse a pena não se importaria, disse-o com um sorriso inocente, ela confirmou-lhe que não ficaria arrependido e no mesmo instante beijou-o suavemente  na face.
Ele sentia-se completamente desconcertado, mas infinitivamente feliz.
Quase a correr como duas crianças, passaram pelo matagal que cercava a estrada, atravessaram um campo de cultivo. Uns metros á frente, alinhados, uns enormes e frondosos salgueiros  pareciam sentinelas, fazendo uma guarda de honra ao rio que se espraiava pela lezíria nos seus imensos braços, a paisagem era encantadora.
A já ténue luz do sol abrilhantava o espectáculo, dando um toque de magia. O rio retribuía o reflexo em cintilantes pedaços espelhados nos seus olhos. Sentiu a mão dela apertar ainda mais a sua, sentiu o seu coração cada vez mais acelerado, nesse momento desejou que o tempo parasse ali, deslumbrado e com alguma timidez olhou em redor até não resistir mais e enquanto também retribuía o aperto na mão dela, olho-a então fixamente, reparou que os olhos dela tinham sido também contagiados... irradiavam uma  estranha luz, levemente humedecidos, não resistiu, e sem hesitar puxou-a para si e beijou-a. Apertou o peito dela contra o seu, sentiu o coração dela no seu peito ofegante, isso deixou-o um pouco mais confiante, ela sem dúvida estava também a sentir algo de muito forte por ele, apertou-a ainda mais contra si, sentia um fogo a arder dentro de si como à muito não pensava vir a sentir, ela estava a ficar completamente louca, desapertara-lhe a camisa, recordava-se que lhe arrancara uns botões, estando os seus corpos nessa altura a pensar como um só,  porque a mente, essa já não existia, num gesto meio brusco mas terno dobrou-se sobre ela, e com um movimento rápido, deixaram-se cair no campo cultivado...